O estado do seu corpo também faz parte da gestão do seu negócio
- Paula Guedes

- 27 de jul.
- 5 min de leitura
A alimentação costuma ser lembrada quando falamos sobre saúde. Mas, para quem empreende, ela também influencia outro aspecto essencial: a forma como trabalhamos.
Foco, clareza mental, disposição e capacidade de tomar decisões são habilidades exigidas diariamente na gestão de um negócio. E todas elas dependem, em maior ou menor grau, da energia que o corpo recebe ao longo do dia.
Para entender melhor essa relação, conversamos com a nutricionista Gabriela Garcia sobre os hábitos alimentares mais comuns entre mulheres empreendedoras, os impactos da alimentação na rotina de trabalho e pequenas mudanças que podem contribuir para mais energia e melhor desempenho.
Confira a entrevista completa:

1) Como a alimentação influencia o foco, a clareza mental e a capacidade de tomar decisões ao longo do dia?
A influência é muito maior do que se imagina. O cérebro é o órgão que mais consome
energia no corpo: cerca de 20% de tudo o que ingerimos é destinado a ele. Cada decisão, cada reunião e cada problema resolvido tem um custo energético real, e esse custo é pago
com aquilo que colocamos no prato. Quando a alimentação oscila, a mente oscila junto.
É nesse ponto que a rotina da empreendedora se torna vulnerável. Longos períodos sem se alimentar, refeições improvisadas e pobres em proteína e fibra, o café no lugar da comida e o açúcar como recurso emergencial fazem a glicose subir e cair em ciclos. O corpo percebe como oscilação de energia; a mente, como perda de foco e aquela névoa mental que surge justamente quando as decisões importantes ainda estão na mesa.
E há um ponto essencial para quem lidera: o estado do corpo define a qualidade da decisão. Cansada e com a energia em queda, a tendência é decidir por impulso, com menos visão estratégica. Com a energia estável, preserva-se a capacidade de sustentar a pressão e negociar sem reatividade.
Por isso, reforço: a alimentação não é um detalhe da rotina. É parte da infraestrutura do negócio.
2) Quais são os erros alimentares mais comuns que você observa em mulheres empreendedoras e quais consequências eles podem trazer?
Os erros que mais observo têm um ponto em comum: não nascem da falta de informação, mas de uma rotina que não abre espaço para o cuidado.
O mais frequente é pular refeições sem planejamento. A agenda avança sobre o almoço, o corpo passa horas sem energia, e a fome acumulada chega à noite conduzindo aos exageros. E aqui faço questão de dizer: não se trata de falta de disciplina, e sim da fisiologia respondendo a um dia inteiro de privação. Em seguida, o café assumindo o papel de refeição: ele disfarça a fome, mas o custo aparece no fim da tarde, em forma de irritabilidade e queda de rendimento. Completa o quadro a alimentação delegada à praticidade: industrializados, delivery recorrente e refeições pobres em nutrientes.
As consequências se manifestam em camadas: no curto prazo, oscilação de energia e exageros noturnos; no médio, ganho de peso, piora do sono e desequilíbrios hormonais que, na mulher, se expressam no ciclo menstrual, na pele e na disposição; no longo prazo, condições crônicas que poderiam ser evitadas.
Nenhum desses erros se resolve apenas com força de vontade. Eles se resolvem com estrutura: uma rotina alimentar desenhada para caber na vida real de quem empreende.
3) Existe uma alimentação ideal para quem passa muitas horas trabalhando, participando de reuniões ou atendendo clientes?
Mais do que uma alimentação ideal, o que existe são princípios que sustentam a energia em jornadas longas e que podem ser adaptados à realidade de cada mulher.O primeiro é a regularidade: o cérebro trabalha melhor recebendo energia de forma constante, e não em longos intervalos seguidos de refeições volumosas. Isso significa prever as pausas alimentares na agenda com a mesma seriedade de qualquer compromisso.
O segundo é a composição das refeições: a combinação de proteína, fibra e boas fontes de carboidrato, como os integrais e as leguminosas, libera energia de forma gradual e evita as quedas de rendimento no meio da tarde.
O terceiro é manter lanches estratégicos ao alcance, como frutas, castanhas e iogurte natural, para que a praticidade dos industrializados não decida por nós.
E o quarto, frequentemente esquecido, é a hidratação: mesmo uma desidratação leve já compromete a atenção, e é comum confundirmos sede com fome ou cansaço. Mais do que buscar a alimentação perfeita, o convite é construir uma alimentação possível, consistente e planejada. É a constância, e não a perfeição, que sustenta uma rotina exigente.
4) Quais sinais do corpo indicam que a falta de energia pode estar relacionada à alimentação, e não apenas ao excesso de trabalho?
O corpo emite sinais claros. A questão é que aprendemos a atribuir todo cansaço ao excesso de trabalho.
O primeiro indício está no padrão da energia. O cansaço do trabalho tende a ser progressivo; o de origem alimentar oscila em horários previsíveis: queda brusca no meio da tarde, sonolência após o almoço. Quando a disposição melhora visivelmente depois de comer, o corpo está indicando a origem do problema.
O segundo sinal é a fome que altera o humor: irritabilidade e dificuldade de concentração que surgem entre as refeições e desaparecem depois delas. O terceiro é a vontade recorrente de doces e cafeína, uma tentativa do corpo de compensar a energia que a alimentação não forneceu.
Há, ainda, sinais que pedem atenção especial: acordar cansada mesmo dormindo razoavelmente, queda de cabelo, unhas frágeis, palidez e dores de cabeça frequentes.
Podem indicar carências nutricionais, como a deficiência de ferro, frequente em mulheres, e merecem investigação profissional.
Reconhecer a diferença entre o cansaço da rotina e o cansaço que nasce no prato já é o primeiro passo do cuidado.
5) Se uma empreendedora pudesse começar mudando apenas três hábitos alimentares para ter mais energia e rendimento no trabalho, quais seriam?
Seriam estas: simples na aparência, mas transformadoras na prática.
A primeira: tomar o café da manhã em casa. Não precisa ser elaborado: ovos, frutas, aveia, iogurte natural. Dez minutos sentada à mesa mudam a qualidade das horas seguintes.
A segunda: incluir as pausas para comer dentro da agenda, tratando-as como uma reunião ou atendimento que não se cancela. Quando a pausa não está agendada, ela simplesmente não acontece.
A terceira: usar a praticidade a favor da saúde, mantendo por perto alimentos que sustentam o foco: castanhas e frutas que dispensam preparo, como banana, maçã e ameixa. Nos dias intensos, não é a força de vontade que decide o que comemos, e sim o que está disponível.
E, permeando os três hábitos, uma aliada silenciosa: a garrafa de água sempre à vista. A hidratação constante sustenta a atenção sem exigir esforço adicional.
Nenhuma dessas mudanças exige dieta restritiva ou tempo extra, apenas intenção e constância. E, quando esses primeiros passos se consolidam, o acompanhamento profissional permite ir além: entender o que o corpo de cada mulher precisa, de forma individualizada, é o que transforma hábitos em resultados duradouros.
Sobre a Série Especialistas do Ecossistema
Este artigo integra a Série Especialistas do Ecossistema Delas, uma iniciativa que reúne o conhecimento de empreendedoras da comunidade em diálogo com suas cofundadoras. Acreditamos que diferentes perspectivas enriquecem a construção do conhecimento e ampliam a capacidade de enfrentar os desafios da gestão com mais clareza, profundidade e estratégia.
